O Regime Militar foi um marco na nossa história, onde instauraram-se proibições que influenciaram nosso modo de nos relacionarmos com  as outras pessoas, com as leis e normas morais. A autoridade e a não participação popular foram pontos chaves nessa época. O regime considerado antidemocrático do governo militar durou até 1985, onde o povo pode respirar mais aliviado e expressar com liberdade pensamentos e vontades, sem punições. Estávamos livres de todo autoritarismo. Entretanto, foi justamente aí que outro problema se instaurou.

Em meio a tantas proibições vividas nesta fase, a geração daquela época entendeu que para ter uma vida plena e livre “era proibido proibir”, que todo o indivíduo tinha o direito de fazer, pensar e ser quem e o que desejasse, sem repressões. Nasce então na década de 80, uma “nova pedagogia” em que o “não dizer não” foi adotado como regra.

A partir daí o termo “não” foi considerado como uma forma ditatorial que deveria ser abolida imediatamente.  O povo estava oprimido e tinha grande necessidade de liberdade. Todos estavam fartos das negações, das normas e leis.

Este modelo de educação impedia qualquer autoridade e liderança, como dos pais e professores e o “não dizer não” aos alunos ou filhos faria nascer uma geração mais autônoma, liberta e feliz. A educação começou a funcionar por meio do convencimento, ou seja, pelo diálogo, conciliação e persuasão. O novo método era conseguir dos jovens o que queríamos deles sem reprimi-los, possibilitando qualquer direito de expressão.

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Embora estejamos há mais de trinta anos pós-ditadura, essa fase reflete até as gerações atuais, conhecidas como a geração “Y” e “Z”. São as pessoas nascidas após os anos 80, 90 e 2000. O “não dizer não” gerou desordem e uma geração de sujeitos que não lida com frustrações e limites.

Estas são as pessoas que não suportam de forma alguma os “nãos” da vida, as frustrações ou limites estipulados por qualquer autoridade.  Estamos rodeados de crianças, adolescentes e até adultos sem margens, sem possibilidades de lidar com as decepções e conflitos da vida.  Essa imaturidade de não aceitar ouvir um “não” explica o aumento de suicídios e estresse entre os jovens

A falta do “não” criou filhos despreparados para a vida real. Jovens e adultos imaturos, ignorantes quanto às dificuldades financeiras, dispersos, desorientados e intolerantes.  Jovens que só querem exercer profissões que lhes agradam, executar atividades que sejam unicamente prazerosas e nunca se submetem ao desconforto, mesmo que seja em prol de uma causa maior.

Sabemos que nos últimos 20 anos a tecnologia se multiplicou significativamente e permitiu acessos ilimitados de qualquer localidade, com qualquer pessoa e distância – o que intensificou o discurso do “tudo pode”. Esses discursos libertadores e de felicidade acima de tudo fazem as pessoas nunca enxergarem os direitos e necessidades do outro. O outro só serve para satisfação, para “me fazer feliz”.

Jovens e adultos que apenas atuam no que amam ou são apaixonados, que se o chefe os corrigir ou disser que o serviço está errado choram, alegam perseguição ou bullying. Quando se sentem pressionados querem se jogar da janela, pedir as contas e processar a empresa. Uma geração que não admite estar errada, embora eles estejam completamente equivocados, existe uma grande apelação e propaganda fantasiosa para que eles façam somente aquilo que os dê prazer, sem esforços, renúncias e empatia.

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Apesar de que os pais desses jovens até agora batalham significativamente, sofrem frustrações, suportam empregos que não amam e nem são apaixonados, toleram chefes autoritários para trazer o sustento para a família, tais pais além de tudo continuam sustentando esses jovens infantis.

Pessoas poupadas do “não”, em maioria, tornam-se sujeitos imaturos, dependentes e ingratos. Uma geração de pessoas que acredita que devem ser felizes acima de qualquer coisa e que todos ao redor devem colaborar para tal felicidade.

O psicanalista Winnicott afirma que “é por meio da repressão que surge a criatividade”. Precisamos ser barrados, repreendidos e contidos na pulsão, por isso que barrar uma criança de morder a outra fará com que ela invente outra forma de lidar com aquele sentimento agressivo de querer um brinquedo e não poder obtê-lo.

O viver sem limites faz com que as pessoas não suportem as frustrações e os “nãos” da vida. São perfis de pessoas que fogem do desprazer constantemente. Não podemos viver sem moldes, soltos e à deriva. O sujeito é moldável pela linguagem e a criatividade só funciona a partir de palavras.

Não precisamos ser os pais que entregam tudo de “mão beijada” aos filhos, que brigam com os professores quando são os filhos que tem mau comportamento, que os poupam de tudo para que não tenham a “vida difícil” que tivemos. Podemos falar “não” para as crianças, jovens e até mesmo adultos. Podemos sim frustrá-los negando algo que queiram e não seja bom, não facilitar quando errarem e exigir que arquem com as consequências. Nossa missão é mostrar que o mundo não é “cor-de-rosa” como muitos imaginam.

Por Elizandra Souza/Psicanalista

 

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